Blog do Conto
 

FAREWELL

 

Umberto Krenak

 

Há algo em mim que morre um pouco ao ver-te assim deitada, cabelos arrumados sob a nuca, um manto cinza de pura seda no qual aninho minhas mãos.

 

Ah, amiga, se não éramos nós, uma ao lado d´outra à beira do riacho, cercadas de arbustos, nuas, as pernas entrelaçadas, criando constelações, traçando linhas imaginárias entremeadas de risadas tolas e deliciosas.

 

E se não éramos nós mesmas a resfolegar na noite, a procurarmos a mão que consola e desassossega; a esfregarmos com volúpia nossas pubes úmidas, fustigadas pelo calor dos trópicos.

 

Ai, amiga!

 

Eu te amei como a nenhuma outra.

 

Amei teus olhos, tua boca, teus segredos. Com a saliva cálida de meus lábios desmanchei as tatuagens dos lençóis na tua pele.

 

Em nossa casa antiga, nesta cidade centenária, nas noites frias de outro tempo, eu pedia que os libertasse. E teus cabelos negros, plenos de estrelas, caíam sobre teus ombros, sobre os meus seios, desabando pesados sobre o meu rosto, uma chuva luminosa.

 

Hoje estamos aqui, juntas novamente.

 

O que me calei por esses anos de distância, transbordei em cartas, que trouxe comigo e agora deposito em tuas mãos.



Escrito por Krenak às 23h39
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Amorrer

 

Umberto Krenak

 

Morrer de amor é quase sempre

Morrer de amor

É quase sempre morrer

De amor é quase

Quase amor

Sempre



Escrito por Krenak às 01h33
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GIRO-GIRA

 

Umberto Krenak

 

 

Marialva acreditava em Pedro, que acreditava em Marialva. Mentiam um para o outro porque não queriam perder-se, barcos à procura de um porto.

 

Na vizinhança, Josefo: gorducho, pé-de-valsa; logo traçou Marialva. E cravou em Pedro o espeto do ciúme.

 

Marialva acreditava em Pedro, que não acreditava em Marialva. Josefo comia Marialva. Pedro acreditaria em Papai Noel e no coelhinho da páscoa.

 

Na vizinhança, Gertrudes: mulata da bunda grande e canelas grossas. Josefo embasbacado - traçou Gertrudes.

 

Marialva acreditava em Pedro, que não acreditava em Marialva, que acreditava em Josefo, que acreditava em Gertrudes.

 

Gertrudes sem pó de café procurou Marialva. Trocaram confidências, receitas de jornal. Tornaram-se amigas.

 

Pedro ficou louco.

 

Josefo se mandou pra Minas com uma tal Manoelita.



Escrito por Krenak às 22h56
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EFEITO BORBOLETA

 

Umberto Krenak

 

- Eita, churrasquinho bão, né cumpadre? – a boca de Zé Chulapa nem bem engolira um naco de carne, já buscava outro pedaço no espeto.

- Devera. Mas cumpadre – João Sapateiro mais uma vez chupou os dentes – Eu não imaginava que tivesse tanto.

- Eu não te disse? Aqui no lixão tem muito.  A quarta-feira é o dia que tem mais. Cê viu? Foi só chegar e meter paulada.

- Matamo uns dez. Mas tão criados. Uma beleza! Alguns parecendo até capivara.  Tanto tempo que eu não comia carne...

- Ah, pois eu venho aqui todo dia.

- Agora eu tô nessa também, cumpadre.

E felizes da vida, encheram os copos de pinga e brindaram ao dia.



Escrito por Krenak às 00h20
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DESEJOS

Konstantinos Kaváfis

(Trad. de José Paulo Paes)

 

Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,

com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,

jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas -

assim são os desejos que um dia feneceram

sem chegar a cumprir-se, sem conhecer antes

o prazer de uma noite ou manhã luminosa.



Escrito por Krenak às 14h57
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INVENÇÃO DE ORFEU

 

Jorge de Lima

 

Canto I
Fundação da Ilha

XVIII

Éguas vieram, à tarde, perseguidas,
depositaram bostas sob as vides.
Logo após borboletas vespertinas,
gordas e veludosas como urtigas

sugar vieram o esterco fumegante.
Se as vísseis, vós diríeis que o composto
das asas e dos restos eram flores.
Porque parecem sexos; nesse instante,

os mais belos centauros do alto empíreo,
pelas pétalas desceram atraídos,
e agora debruçados formam círculos;
depois as beijam como beijam lírios.



Escrito por Krenak às 21h55
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  POEMÍNIMOS

Umberto Krenak


SOLIDÃO

A solidão
Que me pedes
Não posso
Dar-te

CALEIDOSCÓPIO

Calei-me
E do silêncio aspirado
Fiz um universo

NARCISO

No espelho d´água
Meu líquido
Reverso

BROOKE

Ela disse:
Não existe nada
Entre minha pele
E o jeans.


Escrito por Krenak às 18h40
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VIVER É UMA QUESTÃO DE SORTE
 
Umberto Krenak
 
- Porra! Você não cansa de ficar na frente desta merda de quadro, Val?
 
- Não enche!
 
Zuê tava me dando nos nervos, implicando só porque eu gostava daquela 
pintura. Não lembro quem colocou aquilo lá. Pensei na Jane, mas ela não 
andava mais com a gente, tinha abandonado o tráfico há um tempão e se 
metido com a galera da baixada; já foi desta pra melhor, a pobre.
 
A não ser pelas manchas de dedos num dos cantos, a pintura tava bem 
conservada - a rua vazia, o bar do fim de noite; e aquele homem de chapéu 
dando as costas pro mundo. Não sei por quê, mas sempre imaginei meu pai 
usando chapéu. Mamãe nunca disse nada. Quando eu perguntava, ela falava 
que eu esquecesse, que eu não tinha pai, meu pai era Deus do céu, 
bastava ver a certidão, estava lá, escrito: Valdivio de Jesus Pereira. Eu 
era de Jesus. E pronto!
 
Mas desde pequeno, eu sempre soube que tinha um pai e toda vez que 
olhava o moço naquele quadro tentava imaginar seu rosto.
 
- Neguinho foi apagado, Val. Ontem – Zuê tava sentado no chão, fazendo 
uma carreirinha.
 
- Porra! O Neguinho? O cara só queria ganhar o dele. Não se metia com 
ninguém...
 
- É. Tão dizendo que o foi o Robinho Sem-braço. Você sabe – deu uma 
fungada – o cara é metidão, quer tomar a boca.
 
- Olha o que eu guardo pra ele – saquei minha pistola e dei um tiro na 
perna da mesa. Zuê, que já tava alto, gargalhou pra caralho. E eu 
junto.
 
Dei mais um tapa. Na minha frente, o quadro. Aquele rosto parecia 
perdido para sempre. Tudo bem, no dia seguinte ia completar 17 e encher a 
cara. Até esborrachar. Se minha mãezinha me visse, coitada! Morreu sem 
saber por quê. Um dia em que a polícia entrou atirando pra todo lado. E 
eu nem trabalhava na boca ainda. Depois caí na vida, matei quatro 
polícias, sem dó. Atirei na cabeça! Raça ruim tem é que morrer mesmo!
 
- Olha o que eu vou fazer com essa porra de quadro – quando dei por 
mim, Zuê tinha levantado e tava com uma faquinha na mão. Com um monte de 
estucadas, deixou a pintura esbagaçada. – Bandido não pode ter essas 
frescuras no barraco! – e gargalhou alto.
 
- Você não devia ter feito isso, cara!
 
- Qualé, Val? Este quadro era meu. Tudo que tem aqui neste barraco é 
meu.
 
- Você sabia que eu gostava dele, porra!
 
- Vai chorar? Pode chorar, nenêzão – e gargalhava.
 
- Caralho, cara. Você sabe o que está fazendo?
 
Zuê tava muito doidão, tinha entupido o rabo de pó e agora estava um 
trapo, deitado no chão, na minha frente, vermelho de tanto rir.
 
Eu fiquei puto, puto, senti o sangue me esquentando o rosto. Cara 
sacana! Peguei a arma e apontei pra cabeça. Ele era um trapo, um lixo. Nem 
percebeu que tava na minha mira e que quase puxei o gatilho, quase...

====================================================

 

Pintura: Edward Hopper - Nighthawks



Escrito por Krenak às 14h21
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Astronauta

 

Umberto Krenak

 

Os olhos que miram a noite são os mesmo olhos do menino. Entre eles, o tempo.

- São tantas, mãe.

- Milhões e milhões.

- Milhões? Isto é muito, né?

- É tanto que nem dá nem pra contar.

Hoje ele sabe que são incontáveis. Mas é preciso a solidão para vê-las. No corre-corre da cidade, não fazem parte do cenário.

Estrelas.

Os braços da mulher envolvem o corpo franzino do garoto de oito anos, protegendo-o do frio invernal que entra pela janela escancarada.

- Miguel, venha se deitar. Amanhã partimos cedo.

- Espere um pouco, Vera. Chega aqui. Olha como o céu está limpinho.

A mulher se levanta, aproxima-se, beija-lhe a boca.

- Nossa! Há muito não vejo um céu tão lindo!

Abraçam-se.

- O que você quer ser quando crescer?

- Astronauta.

O homem ri.

- Imagine só! Astronauta!

- Quem? Você?

- Sim, meu bem. Já pensou? Um sonho do qual nem me lembrava mais.

- Toda vez que você vem aqui na roça fica meio esquisito.

Ele não saberia explicar, é como se aquela casa fosse uma arca que guardasse tudo o que ele foi, como se ali vivessem todos os Miguéis e não apenas aquele homem de sessenta anos, advogado, casado há trinta, cinco filhos.

- Agora vem, querido. A viagem é cansativa e você não é mais um garoto.

Puxa-o pelo braço e fecha a janela.

Escuro e silêncio.

Ele não sabe se tem medo.



Escrito por Krenak às 06h26
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  O banho de xampu

Elizabeth Bishop
Tradução de Paulo Henriques Britto

Os liquens - silenciosas explosões
nas pedras - crescem e engordam,
concêntricas, cinzentas concussões.
Têm um encontro marcado
com os halos ao redor da lua, embora
até o momento nada tenha mudado.

E como o céu há de nos dar guardia
enquanto isso não se der,
você há de convir, amiga,
que se precipitou;
e eis no que dá. Porque o Tempo é,
mais que tudo, contemporizador.

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
- Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.

Poemas do Brasil, Cia. das Letras, 1999 - São Paulo, Brasil

THE SHAMPOO    

Elizabeth Bishop


The still explosions on the rocks,
the lichens, grow
by spreading, gray, concentric shocks.
They have arranged
to meet the rings around the moon, although
within our memories they have not changed.

And since the heavens will attend
as long on us,
you've been, dear friend,
precipitate and pragmatical;
and look what happens.  For Time is
nothing if not amenable.

The shooting stars in your black hair
in bright formation
are flocking where,
so straight, so soon?
-- Come, let me wash it in this big tin basin,
battered and shiny like the moon.

 

 


Escrito por Krenak às 22h12
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O DESPERTAR

 

 

Umberto Krenak

 

 

 

Acordou. Tudo era treva e silêncio.

 

Chacoalhou a cabeça: a noite, Maria, o filho, o rio, a barca, os hinos, a estação, o banheiro, a dor...mais nada.

 

O pescoço ainda doía.

 

Por certo não estava na velha estação - não havia o cantar dos crentes, nem conversas de passageiros.

 

 

Frio.

 

 

De repente, gritos finos; agudos e prolongados.

 

Arrastou o corpo para detrás de uma pedra.

 

Novos gritos; agora um coro extraordinário.

 

Acima, o alvoroço surdo, ruflar de asas, ventania.

 

 

Medo.

 

 

Da entrada da caverna não distinguiu se era noite ou dia.

 

O corpo estranho...O barulho, guinchos...

 

Tomado de fúria, gritou, e gritou, e gritou.

 

 

Exausto, por fim, compreendeu.

 

Então, de um salto, ergueu-se no ar.

 

E voou com seus iguais.

 



Escrito por Krenak às 17h15
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JARDIM

Umberto Krenak

 

Aquela que passeia sobre os signos tem os pés de chuva.

 

Há pétalas inconseqüentes sobre o passeio.

A rosa: rosa e rubra

Alternando-se no espelho.

 

Meu peito não é dos astros.

Mas da dor pungente

Que late e fere como adaga.

 

É o terreno que fica.



Escrito por Krenak às 23h30
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A  Procura da tônica

 

Umberto Krenak

 

Esperou até que caísse a chuva

À noite sobre a terra seca

Olhou o tempo de antes

O  tempo antes

O tempo

Esquartejou sentimentos

E mergulhou na constelação de si.



Escrito por Krenak às 23h34
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SEDE

 

Umberto Krenak

 

Chegada a hora, respirou fundo

e bebeu o mar.



Escrito por Krenak às 23h15
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Sonnets From the Portuguese

Elizabeth Barrett Browning

I

I thought once how Theocritus had sung
Of the sweet years, the dear and wished-for years,
Who each one in a gracious hand appears
To bear a gift for mortals, old or young;
And, as I mused it in his antique tongue,
I saw, in gradual vision through my tears,
The sweet, sad years, the melancholy years,
Those of my own life, who by turns had flung
A shadow across me.  Straightaway I was 'ware,
So weeping, how a mystic Shape did move
Behind me, and drew me backward by the hair;
And a voice said in mastery, while I strove,--
Guess now who holds thee?--Death, I said, But, there,
The silver answer rang,--Not Death, but Love.



Escrito por Krenak às 22h11
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